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ISSN (Impressa): 2359-4802 | ISSN (Online): 2359-5647




Edição: 28.3 - 13 Artigo(s)




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ARTIGO ORIGINAL
http://www.dx.doi.org/10.5935/2359-4802.20150035


Fatores de risco cardiovascular e sua relação com o nível de escolaridade numa população universitária
Cardiovascular risk factors and their relationship with educational level in a university population

Rute Pires Costa1; Pedro Antônio Muniz Ferreira2; Francisco das Chagas Monteiro Junior3; Adalgisa de Sousa Paiva Ferreira3; Valdinar Sousa Ribeiro4; Gilvan Cortês Nascimento3; Gustavo de Jesus Pires da Silva1; Fernando Mauro Muniz Ferreira1; Jair Alves Pereira Neto5; Leonardo de Souza Carneiro6

1. Faculdade Santa Terezinha - Setor de Fisioterapia - São Luís, MA - Brasil
2. Universidade Federal do Maranhão - Departamento de Pós-graduação em Saúde Coletiva - São Luís, MA - Brasil
3. Universidade Federal do Maranhão - Departamento de Medicina I - São Luís, MA - Brasil
4. Universidade Federal do Maranhão - Departamento de Medicina III - São Luís, MA - Brasil
5. Hospital de Messejana - Fortaleza, CE - Brasil
6. Universidade Federal do Maranhão - Hospital Universitário Presidente Dutra - São Luís, MA - Brasil

Endereço para correspondência

Rute Pires Costa
Av Casemiro Júnior, 12 - Anil
65045-180 - São Luís, MA - Brasil
E-mail: rutepirescosta@hotmail.com

Recebido em 01/06/2015
Aceito em 21/06/2015
Revisado em 29/06/2015

Resumo

FUNDAMENTOS: O menor grau de escolaridade na população parece estar associado com a maior prevalência dos fatores de risco cardiovascular (FRCV). Contudo, poucos estudos avaliaram esse fato através de análise clínica e laboratorial em centros universitários.
OBJETIVO: Avaliar a prevalência dos FRCV em servidores de universidade pública.
MÉTODOS: Estudo transversal, analítico, randomizado, com 319 participantes de uma coorte de servidores universitários. Analisou-se a prevalência dos FRCV através da medição dos níveis glicêmicos e pressóricos, perfil lipídico, índices antropométricos e foram realizadas análises comparativas de subgrupos de diferentes níveis de escolaridade. Realizou-se análise de regressão logística multivariada para avaliar a associação independente entre nível de escolaridade e presença dos FRCV.
RESULTADOS: Média de idade 46,0±10,0 anos, 52,5% mulheres, 56,0% com nível superior de escolaridade, 85,6% pertencentes às classes socioeconômicas B e C. Prevalência dos FRCV: diabetes mellitus (DM) 9,4%; hipertensão arterial sistêmica (HAS) 36,7%; dislipidemia 50,5%; tabagismo 21,9%; sobrepeso 59,6%; obesidade 13,2%; sedentarismo 27,9%. O grupo de menor nível de escolaridade se associou de forma independente com maior prevalência de DM e sedentarismo, quando comparado ao grupo dos servidores com nível superior (docentes e não docentes). DM=odds ratio 2,4 (IC95% 1,05-5,5) e p=0,036; sedentarismo=odds ratio 2,2 (IC95% 1,3-3,7) e p=0,003. Os subgrupos não apresentaram diferenças quanto às demais variáveis.
CONCLUSÃO: Neste estudo, indivíduos com maior nível de escolaridade apresentaram menores prevalências de DM e sedentarismo.

Palavras-chave: Diabetes mellitus; Obesidade; Estilo de vida sedentário; Escolaridade

 

Abreviações e Acrônimos

CA - cintura abdominal

DM - diabetes mellitus

FRCV - fatores de risco cardiovascular

HAS - hipertensão arterial sistêmica

UFMA - Universidade Federal do Maranhão

INTRODUÇÃO

A maioria dos estudos associa o menor nível de escolaridade à maior prevalência dos fatores de risco cardiovascular (FRCV), como mostram Barros et al.1 e Santos et al.2 Porém Vaydia et al.3 demonstram que mesmo entre indivíduos com algum conhecimento acerca da saúde cardiovascular, existe uma lacuna entre o conhecimento e a prática de hábitos saudáveis.

Nesse contexto, pesquisas são controversas quanto à influência do nível de escolaridade na prevalência dos FRCV: para alguns FRCV a escolaridade aparece de forma protetora, enquanto para outros parece não influenciar4-7.

Com o objetivo de verificar a prevalência dos FRCV, assim como a influência da escolaridade e da prática da docência na presença destes, realizou-se a presente pesquisa com servidores de uma universidade pública federal.

 

MÉTODOS

Estudo transversal e analítico, que utilizou o banco de dados de uma coorte denominada "Fatores de risco cardiovascular nos servidores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)". Os dados do estudo foram coletados no período de março de 2009 a outubro de 2010, envolvendo servidores ativos vinculados à UFMA, na cidade de São Luís, MA, Brasil.

O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Presidente Dutra / UFMA, sob o nº 003835/2008-80.

A lista dos servidores ativos da Universidade (n=2 238) foi cedida pelo Setor de Recursos Humanos. Para o cálculo amostral, considerou-se um nível de confiança de 95%, α=5%, erro amostral =2%, prevalência de 50% para os FRCV, obteve-se uma amostra prevista de 350 servidores (10% a mais, prevendo possíveis perdas).

Foram incluídos todos os servidores sorteados, que fossem ativos, de ambos os sexos, com idade superior a 18 anos e que aceitassem participar da pesquisa. Foram excluídos os servidores que se encontravam em processo de aposentadoria, que se negassem a participar e que fossem analfabetos.

A amostra aleatória de 350 servidores foi localizada por Centro e Departamento aos quais pertenciam, e cargo ocupado. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A coleta de dados foi realizada por acadêmicos da área de saúde da universidade, supervisionados e previamente treinados.

As medidas antropométricas peso, altura e circunferência abdominal foram obtidas por pessoal capacitado. Todos os participantes do projeto original responderam ao questionário sobre FRCV, presença de HAS ou DM e comprovaram o tratamento pela apresentação da medicação, embalagem ou prescrição médica. O controle dessas doenças foi confirmado pelos exames laboratoriais realizados e por avaliação clínica.

Para o diagnóstico socioeconômico e demográfico da amostra foi aplicado questionário com questões mistas (abertas e fechadas) com as seguintes informações: idade, sexo, escolaridade, função exercida, número de moradores no domicílio e renda per capita.

A renda per capita (nível socioeconômico) foi baseada em critério proposto pela Associação Nacional de Empresas de Pesquisas (ANEP), disponível em <http://www.abep.org>. Esse critério é construído a partir de uma pontuação baseada na posse de bens e utensílios domésticos, somada à pontuação correspondente ao grau de instrução do chefe da família. As classes são: A1, A2, B1, B2, C1, C2, D e E.

De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa8, os níveis de escolaridade são: analfabeto, fundamental incompleto (até a 4ª série do ensino fundamental), fundamental completo (8 anos de estudo), médio completo (9 a 11 anos de estudo) e superior completo (12 anos de estudo e mais).

Os participantes foram pesados em balança digital, modelo Acqua, com precisão de 100 g, da marca Plenna® (Guangzhou, China). A altura foi mensurada em centímetros, com uso de estadiômetro portátil, com resolução de 0,1 cm. Todas as medidas foram aferidas por duas vezes consecutivas e o valor médio foi usado nas análises.

Para a medida da pressão arterial foi utilizado esfigmomanômetro de coluna de mercúrio, com manguito do mesmo tamanho, sendo ajustado à circunferência do braço. O procedimento foi realizado três vezes com intervalos de 10 a 15 minutos, sendo considerada a média entre as duas últimas medidas, em concordância com a metodologia utilizada para estudos epidemiológicos. Os valores de referência adotados obedeceram às recomendações da VI Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial9: hipertensão arterial níveis >90 mmHg de pressão diastólica e >140 mmHg de pressão sistólica. Os indivíduos que apresentaram pressão arterial abaixo desses níveis, mas que referiram uso de drogas anti-hipertensivas, também foram considerados hipertensos.

Os participantes foram orientados a manter jejum de 8-12 horas para a realização de exames laboratoriais, conforme critérios estabelecidos pelo Expert Committee on Diagnosis and Classification of Diabetes Mellitus10.

O sangue foi coletado por acadêmicos dos cursos de Medicina e de Enfermagem da UFMA (entre 7h-9h), e entregue para análise no Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Universitário Presidente Dutra (HUPD).

O diagnóstico de diabetes mellitus (DM) (glicemia de jejum >126 mg/dL e indivíduos em uso de antidiabéticos) seguiu as normas do Expert Committee on Diagnosis and Classification of Diabetes Mellitus10.

Os valores do perfil lipídico foram analisados de acordo com o NCEP III11: colesterol total normal (<200 mg/dL), limítrofe alto (200-239 mg/dL) e alto (>240 mg/dL); triglicerídeo normal (<200 mg/dL), limítrofe alto (200-400 mg/dL), alto (400-1 000 mg/dL) e muito alto (>1 000 mg/dL); e HDL-colesterol em baixo (<35 mg dL), normal (35-59 mg/dL) e alto (>60 mg/dL). A presença de familiares de primeiro grau com doença arterial coronariana manifesta e/ou cerebrovascular e/ou periférica foi considerada história familiar positiva.

Para o diagnóstico do nível de atividade física e sedentarismo, foram considerados sedentários aqueles que informaram ter uma prática regular de atividade física com duração inferior a 150 minutos semanais, de intensidade leve ou moderada ou pelo menos 75 minutos semanais de atividade física de intensidade vigorosa, segundo a Organização Mundial da Saúde12 e a World Heart Federation13.

O tabagismo foi classificado em: nunca (aqueles que responderam nunca ter fumado e os que pararam de fumar por seis meses ou mais), ex-fumante (aqueles que responderam que não fumam atualmente, mas já fumaram por seis meses ou mais) e fumante (aqueles que referiram fazer uso de qualquer quantidade de fumo independentemente do tempo de início).

Para o diagnóstico de sobrepeso e obesidade central foi calculado o índice de massa corporal (IMC), que expressa a proporção da gordura em relação à composição corporal (razão da massa corporal (kg) pelo quadrado da estatura (cm2).

A circunferência abdominal (CA) foi mensurada conforme o NCEP III11 com fita métrica flexível e não elástica. Os pontos de corte adotados foram aqueles de acordo com o grau de risco para doenças cardiovasculares: risco aumentado para mulheres (CA >80 cm) e para homens (CA >94 cm) e risco muito aumentado para mulheres (CA >88 cm) e para homens (CA >102 cm).

A circunferência do quadril também foi obtida com fita métrica flexível e não elástica.

Foram selecionadas nove variáveis mutáveis, que estão abaixo relacionadas, com seus critérios de anormalidade. Os pontos de corte foram baseados na Organização Mundial da Saúde, NCEP ATP III11 e Sociedade Brasileira de Cardiologia9.

  • Sobrepeso: IMC (peso/altura2) >25 kg/m2 e <30 kg/m2;
  • Obesidade: IMC (peso/altura2) >30 kg/m2;
  • Obesidade central: circunferência da cintura >88 cm para mulheres e >102 cm para os homens, independentemente da presença de obesidade generalizada;
  • Colesterol total alto: >240 mg/dL, pelo método enzimático de Trinder;
  • HDL-c <40 mg/dL para homens e <50 mg/dL para mulheres pelo método Labtest;
  • Triglicerídeos: >150 mg/dL, pelo método de Soloni modificado;
  • Diabetes mellitus: glicemia venosa >126 mg/dL, associado ao diagnóstico comprovado de diabetes em tratamento, e glicemia de jejum normal (método enzimático de Trinder);
  • Tabagismo: fumante atual, qualquer número de cigarros por dia;
  • Sedentarismo: prática regular de atividade física com duração inferior a 150 minutos semanais, de intensidade leve ou moderada ou pelo menos 75 minutos semanais de atividade física de intensidade vigorosa.
  • Outras variáveis independentes incluídas não foram consideradas fatores mutáveis: idade, sexo, raça (variáveis biológicas). A raça foi definida na presente pesquisa a partir da cor da pele (branca vs. não branca), conforme a nomenclatura oficial utilizada nos censos demográficos.

    Os dados foram processados utilizando-se o programa SPSS versão 21. As variáveis qualitativas foram expressas em frequências; as variáveis quantitativas em médias e desvios-padrão.

    Foi utilizado o teste t de Student para amostras independentes para a comparação das médias das variáveis quantitativas entre os níveis de escolaridade. A associação dos FRCV com os grupos foi verificada através do teste do qui-quadrado para amostras independentes. Ambos os testes foram realizados com intervalo de confiança de 95%; nível de significância α=5%; erro amostral =2%.

    Foi realizada análise de regressão logística multivariada. As variáveis que apresentaram p<0,05 nas análises univariadas entraram para os modelos e foram consideradas estatisticamente significativas.

     

    RESULTADOS

    Dos 350 servidores sorteados, foram excluídos 31 por não atenderem aos critérios de inclusão. Permaneceu uma amostra representativa de 319 servidores, percentual encontrado dentro dos padrões de 10% de perda calculados para o estudo.

    A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas da amostra estudada. Indivíduos sem nível superior de escolaridade representavam 43,89% e com nível superior, 56,11%. Os níveis de escolaridade foram distribuídos igualmente por sexo (p=0,735), faixa etária (p=0,676) e estado civil (p=0,365), com maior prevalência de não brancos, naturais da capital, com lotação no campus universitário. Os docentes eram, em sua maioria, do sexo masculino, na faixa etária de 50-59 anos, não brancos, casados, naturais de São Luís e com lotação no campus universitário.

     

     

    Na população estudada, a prevalência dos FRCV foi: DM 9,4%; sobrepeso 59,6%; obesidade 13,2%; hipertensão arterial sistêmica 36,7%; sedentarismo 27,9%; dislipidemia 50,5% e tabagismo 2,6% (Tabela 2).

     

     

    Quando comparadas as prevalências dos FRCV entre os grupos com e sem nível superior, o grupo com nível superior foi menos sedentário (p=0,003) e apresentava menor prevalência do DM (p=0,033). Os níveis de escolaridade foram distribuídos igualmente quanto a sobrepeso, obesidade, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia e tabagismo (Tabela 2).

    No que diz respeito à prática da docência, houve distribuição semelhante da proporção dos fatores de risco cardiovascular entre os grupos dos docentes e não docentes (Tabela 3).

     

     

    A Tabela 4 mostra os níveis pressóricos, índices antropométricos, perfil lipídico e nível glicêmico de acordo com o nível de escolaridade. Com exceção do nível glicêmico, que foi maior no grupo sem nível superior (98,67±34,08 mg/dL vs. 92,63±13,64 mg/dL; X2 =0,031), as demais variáveis pressóricas, antropométricas e lipídicas foram similares nos dois grupos.

     

     

    Os resultados da regressão logística binária estão descritos da Tabela 5.

     

     

    DISCUSSÃO

    A associação do nível de escolaridade com FRCV, em ambientes universitários, tem sido avaliada e parece não estar definida. De uma maneira geral, o melhor nível de escolaridade se associa a uma menor percepção negativa de saúde14, sendo esperado que indivíduos com maior escolaridade tenham mais conhecimento sobre a saúde e hábitos mais saudáveis15. Dessa forma, os resultados deste trabalho podem, em parte, ser atribuídos à existência de uma lacuna na relação entre conhecimento da saúde cardiovascular, atitude e prática/comportamentos de hábitos saudáveis, hipótese já descrita por Vaidya et al.3

    A prevalência do DM observada neste estudo foi 9,4%, valor superior às prevalências e estimativas mundiais, considerando indivíduos da mesma faixa etária, como mostram Shaw et al.16 e Guariguata et al.17. Quando comparado ao Brasil, o presente estudo apresentou valores superiores à pesquisa de base populacional recente18, que evidencia um aumento da prevalência do DM entre 2006 e 2013, de 5,5% para 6,8%.

    Estudos realizados em outros centros universitários apresentam valores divergentes de prevalência de DM, sendo encontradas taxas superiores no Sudeste19 e no Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (ELSA)20. Neste último, o valor equivale ao dobro do encontrado na presente pesquisa.

    É possível justificar as diferenças encontradas nos estudos por questões metodológicas (randomização, inquérito telefônico, autorrelato, pelo uso de exames laboratoriais e pelos pontos de corte glicêmicos diferentes), fatores que podem interferir na prevalência do DM. Outro ponto importante são as diferenças advindas do desenvolvimento dos países. Nesse sentido, Reddy21 destaca que, em países em desenvolvimento, o processo de industrialização acarreta maior exposição aos FRCV por mudanças nos hábitos de vida, como na dieta e na atividade física.

    Em relação à associação entre prevalência do DM e nível de escolaridade, outros estudos apresentam resultados conflitantes, como o realizado em nove países europeus, que constata que não há diferença entre os níveis glicêmicos entre indivíduos com escolaridades diferentes22, assim como em pesquisa similar na África, na qual a distribuição do DM foi similar nos diferentes níveis de escolaridade5. Contudo, estudos realizados na Espanha23,24 evidenciam maior prevalência do DM em pessoas com menor nível de escolaridade. Em pesquisa de base populacional, em 2012, as prevalências de DM entre o menor e o maior nível de escolaridade variou de 12,1% para 3,8%4.

    Essa associação do DM com o nível de escolaridade é complexa e tem consequências significantes como as demonstradas no estudo de coorte, realizado com 85 867 indivíduos nos Estados Unidos, o qual evidenciou que adultos portadores do DM com menor nível de escolaridade apresentam taxa de mortalidade 503 vezes maior por 10 000 habitantes do que aqueles portadores de DM com maior nível26.

    Destaca-se o fato de os docentes na presente pesquisa terem apresentado prevalência de 13,1% de DM, aproximadamente, ¼ do apresentado em estudo similar no sul do País27. Quando comparada a prevalência entre docentes e não docentes, não houve diferença significativa entre os grupos. Porém quando comparados os grupos quanto ao nível de escolaridade, os níveis glicêmicos são maiores em indivíduos com menor nível, semelhante ao encontrado no estudo ELSA20, e em estudo africano realizado por Capingana et al.5 Resultados diferentes são encontrados no estudo de Achidi et al.7, no qual os docentes apresentaram maiores níveis glicêmicos que os não docentes. Sugere-se que esse resultado contraditório seja justificado pelo fato de, na presente pesquisa, cerca de 60% dos docentes serem de cor não branca e, segundo Santos et al.2, indivíduos negros e mulatos não diferirem dos brancos quanto aos hábitos de fumar, sedentarismo e quanto à presença da hipertensão arterial, fato que pode ter influenciado o resultado encontrado.

    A prevalência encontrada de sedentarismo foi 72,1%, valor aproximadamente equivalente ao dobro, quando comparado à maior taxa de sedentarismo encontrada por Lloyd-Sherlock et al.28, que variou de 24,9% a 37,6%. Em comparação com Welmer et al.29, o valor encontrado é três vezes superior, quando observadas as faixas etárias similares.

    Estudo brasileiro2 com 2 531 indivíduos, de raças diferentes, de 72 centros urbanos, mostra altos valores de sedentarismo, variando de 76,6% a 81,83%, sendo similar à presente pesquisa. Valor inferior (16,2%) é encontrado em estudo populacional brasileiro em 201318.

    A associação inversa entre nível de escolaridade e sedentarismo, observada neste estudo, também tem sido descrita em estudos europeus23,30. Nesse contexto, Morales-Asencio et al.23 enfatizam como os padrões de comportamento são relacionados aos fatores socioeconômicos e culturais

    Estudo realizado por Petroski27 constata prevalência de sedentarismo entre os professores universitários 25% menor que o da presente pesquisa. Porém, Reis14 e estudo em centro universitário na Rússia31 mostram valores superiores. Um valor expressivo (42,6%) dos professores russos não realizam prática alguma de atividade física e consideram como justificativas para esse fato a falta de tempo, atividades ou estudos extras ao horário de trabalho, assim como a falta de condições apropriadas para a atividade física. Outro estudo acrescenta outras barreiras impeditivas como falta de autodisciplina, falta de equipamentos e falta de companhia32. Assim como nessa pesquisa, estudo em universidade brasileira33 também foi contraditório aos achados de Petroski27.

    Destaca-se que a taxa de obesidade nos participantes foi inferior à encontrada na América do Sul e no Brasil (2007-2013)34 e está de acordo com estudos realizados em São Luís em 200935 e em 201334. É interessante observar que esta capital apresenta menor prevalência nacional de obesidade, sendo as maiores prevalências em Cuiabá e no Rio de Janeiro. Estudos em universidades, como os realizados por Achidi et al.7, Scott et al.36 e Duncan et al.37 apontam valores superiores. Contrariamente, estudo do Sudeste brasileiro mostra valor equivalente à metade do observado na presente pesquisa38, diferindo por não ter havido randomização dos sujeitos participantes.

    Contrariamente ao DM e sedentarismo, a obesidade foi igualmente distribuída quanto ao nível de escolaridade, divergindo do estudo africano5, daquele realizado por Santos et al.2 e da Pesquisa VIGITEL18, que constatam que, de uma maneira geral, em população com maior tempo de estudo ocorre menor prevalência de sobrepeso e obesidade.

    Uma justificativa para a associação divergente entre nível de escolaridade e obesidade no Brasil foi encontrada por Fonseca et al.33, no estudo Pró-Saúde, em um centro universitário, que fundamentou essa associação pelas alterações cíclicas de peso. Nele, as variações de peso ao longo da vida, tanto constantes quanto cíclicas, apresentaram associação com o nível de escolaridade dos pais e do próprio indivíduo, com importantes diferenças referentes ao sexo. Para os homens, essa associação não foi confirmada; porém, as mulheres de menor nível de escolaridade apresentaram chance 94% maior de referirem aumento cíclico de peso corpóreo.

    Por outro lado, estudo similar à presente pesquisa, na África7, indica não haver associação entre índice de massa corpórea e nível de escolaridade, concordando com os resultados encontrados.

    O fato de ser docente com pós-graduação (mestrado e doutorado) não se associou à menor prevalência de obesidade, quando comparado ao grupo de não docentes. Tal resultado contraria os achados de Hayes et al.15, que explicam que as pessoas com melhor nível de escolaridade são mais expostas a mensagens de saúde, têm melhor apoio social, mais consciência de se manter saudável e acesso mais oportuno aos serviços de saúde.

    Os valores de HAS, tabagismo e excesso de peso nos participantes deste estudo são superiores e divergentes aos encontrados por Malta et al.39 Segundo esses autores, os FRC estão mais presentes em adultos menos escolarizados, uma vez que no presente estudo, houve igual distribuição nos níveis de escolaridade. Contudo, estudo europeu mostra que o tabagismo não foi controlado pelo menor nível de escolaridade, resultado semelhante ao presente estudo40.

    A elevada prevalência de excesso de peso na população estudada está de acordo com os achados de pesquisas recentes, que apresentaram valores entre 48,5% e 54,7%18,38. Quanto à prevalência de dislipidemia encontrada, esta é maior que o dobro da encontrada em estudo brasileiro recente18.

    Esta pesquisa foi realizada com uma amostra probabilística da população de uma universidade pública e foram realizados exames clínicos e laboratoriais para constatação da presença dos fatores de risco cardiovascular nos indivíduos estudados. No entanto, por se tratar de um estudo transversal, não foi possível estabelecer uma relação de causalidade nas associações encontradas. A não verificação do consumo de álcool e o fato de não haver indivíduos com escolaridade inferior a cinco anos de estudo são limitações desta pesquisa.

     

    CONCLUSÃO

    Neste estudo, os indivíduos com maior nível de escolaridade tiveram menores prevalências de DM e sedentarismo.

    Potencial Conflito de Interesses

    Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

    Fontes de Financiamento

    O presente estudo foi parcialmente financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela concessão da bolsa de Mestrado.

    Vinculação Acadêmica

    Este artigo representa parte da dissertação de Mestrado de Rute Pires Costa pela Universidade Federal do Maranhão.

     

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