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ISSN (Print): 2359-4802 | ISSN (Online): 2359-5647




Edition: 27.3 - 11 Article(s)




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POINT OF VIEW

Healthy gums slow the progression of carotid atherosclerosis
Gengivas saudáveis retardam a progressão de aterosclerose nas carótidas

Allan Abuabara

Secretaria Municipal da Saúde de Joinville - Gerência da Unidade de Atenção Básica - Núcleo de Apoio Técnico - Joinville, SC - Brasil

Corresponding author

Allan Abuabara
Rua Araranguá, 397 - América
89204-310 - Joinville, SC - Brasil
E-mail: allan.abuabara@gmail.com

Received in 1/28/2014
Accepted em 5/25/2014

Abstract

Studies have linked periodontal disease to atherosclerosis and cardiovascular diseases. This paper presents the results of a major study that underscores this relationship. This is the first evidence showing that better periodontal conditions, defined through clinical and microbiological aspects, are associated with less progression in carotid atherosclerosis. This population-based cohort study highlights the importance of a multidisciplinary approach to patients, especially for physicians and dentists, in order to prevent and control cardiovascular diseases. Future studies might well show that oral health could be an important prognostic indicator of general patient health.

Keywords: Carotid artery diseases; Atherosclerosis; Periodontitis

 

INTRODUÇÃO

A periodontite é uma doença infecto-inflamatória que acomete os tecidos de suporte e de sustentação dos dentes, ou seja, gengiva, cemento, ligamento periodontal e osso1. Sua evolução leva à perda de inserção do ligamento periodontal e destruição do tecido ósseo adjacente causando a exposição das raízes, formação de bolsas periodontais, mobilidade dentária e perda dos dentes. Um dos sinais mais comuns é o sangramento da gengiva, espontâneo ou durante a escovação e uso do fio dental.

Uma série de estudos tem associado a doença periodontal com a aterosclerose e as doenças cardiovasculares2-4. Sendo assim, a Academia Americana de Periodontologia reconhece que a saúde periodontal pode interferir no desenvolvimento da aterosclerose, do infarto do miocárdio e das doenças cardiovasculares5. Essas informações já são do conhecimento da maioria dos cardiologistas que participaram de um estudo realizado em 2011 na cidade do Rio de Janeiro6. Mesmo assim, a correlação das doenças cardiovasculares e periodontais deve ser sempre discutida e aprofundada entre os profissionais e profissionais e pacientes.

O objetivo deste trabalho é apresentar mais uma forte evidência da relação entre as doenças periodontal e aterosclerótica.

 

EVIDÊNCIAS

Estudo americano publicado em outubro de 2013 na revista Journal of the American Heart Association (JAHA) concluiu que manter a gengiva e o periodonto sadios retarda a progressão da aterosclerose nas carótidas7. Esta é a primeira evidência que comprova que a melhora no periodonto, definido pelos aspectos clínicos e microbiológicos, está associada a menor progressão de aterosclerose das carótidas em uma amostra populacional aleatória de homens e mulheres. Além disso, o estudo descreve uma nova maneira de analisar a relação entre as manifestações da periodontite e doenças cardiovasculares.

O trabalho de Desvarieux et al.7, uma coorte de base populacional, avaliou 420 pacientes durante três anos, média de idade de 68 anos, por meio de ultrassom das carótidas, cultura da placa subgengival, nível de interleucina-1β no fluido gengival e mensuração da profundidade de sondagem periodontal. Os critérios de inclusão dos pacientes foram: > 55 anos, sem história de acidente vascular encefálico, infarto do miocárdio ou condições inflamatórias crônicas. Foram excluídos do estudo pacientes que necessitavam de antibióticos profiláticos, com informações incompletas sobre a situação cardiovascular ou número insuficiente de dentes. A população estudada foi 62,0 % sexo feminino, 60,0 % hispânicos, 20,0 % negros, 19,0 % brancos e 1,0 % outros. A amostra populacional é um pouco diferente da brasileira, na qual predominam brancos (47,5 %), pardos (43,4 %), negros (7,5 %) e outros (1,6 %)8.

Em duas análises diferentes, profundidade de sondagem periodontal e microbiota subgengival, comprovou-se a forte associação da progressão da aterosclerose com a doença periodontal. Os dados foram ajustados para idade, sexo, raça/etnia, diabetes, tabagismo, escolaridade, índice de massa corporal, pressão arterial sistólica e taxas de colesterol LDL e HDL. Foram medidos 75 766 sítios periodontais e 5 008 amostras e cultura da placa subgengival, investigando 11 espécies conhecidas de bactérias presentes no periodonto. Dos fatores de risco para doença cardiovascular, a hipertensão arterial foi o único que contrariou o esperado, ou seja, a diferença da espessura da camada íntima-média da parede das carótidas no início e final do estudo foi maior nos normotensos. No entanto, o ajuste para a mudança longitudinal na pressão arterial sistólica descartou esta associação. O estudo constatou que a pressão arterial sistólica diminuiu em média 11 mmHg entre os hipertensos, mas aumentou 4 mmHg entre os normotensos.

A avaliação microbiológica foi um dos pontos fortes do estudo, pois reduziu a possibilidade de viés em relação aos hábitos de higiene oral. Pacientes que escovam e utilizam regularmente fio dental normalmente apresentam menor número absoluto de colônias bacterianas em relação aos que realizam higiene oral deficiente. Esses pacientes também costumam apresentar mais cuidados com os fatores de risco para doenças cardiovasculares9. A especificidade em relação aos grupos de bactérias consideradas como fator etiológico da doença periodontal minimiza essa preocupação. A microbiota oral associada com a doença periodontal possui potencial para contribuir para a aterogênese. Entre as espécies conhecidas, destacam-se: Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Porphyromonas gingivalis, Tannerella forsythia e Treponema denticola. Estas espécies bacterianas estão associadas ao aumento dos níveis interleucina-1β presentes no fluido gengival o que induz a reabsorção óssea, progressão da doença periodontal e aumento na profundidade de sondagem. A carga inflamatória para a periodontite é significativa10.

Além disso, bacteremias orais podem induzir a ativação do sistema imune causando elevações crônicas nos marcadores inflamatórios sistêmicos que, por sua vez, podem iniciar ou agravar o processo inflamatório da aterogênese. Por outro lado, em apenas dois meses, a terapia periodontal já é capaz de melhorar a função endotelial, avaliada por meio do diâmetro da artéria braquial fluxo-mediada, biomarcadores inflamatórios, marcadores de coagulação e ativação endotelial11. Na outra ponta dos resultados do estudo de Desvarieux et al.7, os pacientes que tiveram pouca mudança ou aumento da carga de bactérias patogênicas durante o seguimento da trabalho também apresentaram maior progressão da aterosclerose nas carótidas7.

O estudo concluiu que a melhora clínica na saúde gengival e periodontal está relacionado à redução da progressão das placas de ateromas localizadas nas carótidas. O trabalho ressalta a importância de uma abordagem multiprofissional para os pacientes, especialmente dos médicos e cirurgiões-dentistas, para a prevenção e controle das doenças cardiovasculares. Mais estudos serão necessários para aprofundar a distinção entre as associações, fatores confundidores ou causais, especialmente estudos de intervenção12. Futuros estudos poderão mostrar que a saúde bucal pode ser um importante indicador prognóstico da saúde geral de cada paciente.

O artigo na íntegra de Desvarieux et al.7 está disponível gratuitamente no endereço eletrônico da revista Journal of the American Heart Association (JAHA): <http://jaha.ahajournals.org/content/2/6/e000254>

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte das atividades realizadas pelo Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (Pró-Saúde) e Programa de Educação pelo Trabalho em Saúde (PET-Saúde), uma parceria entre o Ministério da Saúde, a Secretaria Municipal da Saúde de Joinville e a Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE).

Ponto de vista

As opiniões apresentadas neste artigo são somente as dos autores. A Revista Brasileira de Cardiologia acolhe pontos de vista diferentes a fim de estimular discussões com o intuito de melhorar os diagnósticos e os tratamentos dos pacientes.

 

REFERÊNCIAS

1. Lindhe J, Karring T, Lang NP. Tratado de periodontia clínica e implantodontia oral. 4a ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan; 2005.

2. DeStefano F, Anda RF, Kahn HS, Williamson DF, Russell CM. Dental disease and risk of coronary heart disease and mortality. BMJ. 1993;306(6879):688-91.

3. Jimenez M, Krall EA, Garcia RI, Vokonas PS, Dietrich T. Periodontitis and incidence of cerebrovascular disease in men. Ann Neurol. 2009;66(4):505-12.

4. Pussinen PJ, Alfthan G, Rissanen H, Reunanen A, Asikainen S, Knekt P. Antibodies to periodontal pathogens and stroke risk. Stroke. 2004;35(9):2020-3.

5. Scannapieco FA, Bush RB, Paju S. Associations between periodontal disease and risk for atherosclerosis, cardiovascular disease, and stroke. A systematic review. Ann Periodontol. 2003;8(1):38-53.

6. Oliveira BCG, Alves J, Oliveira LCB. Conduta dos cardiologistas frente à doença periodontal como possível fator de risco para as doenças cardiovasculares. Rev Bras Cardiol. 2011;24(5):291-8.

7. Desvarieux M, Demmer RT, Jacobs DR, Papapanou PN, Sacco RL, Rundek T. Changes in clinical and microbiological periodontal profiles relate to progression of carotid intima-media thickness: the oral infections and vascular disease epidemiology study. J Am Heart Assoc. 2013;2(6):e000254.

8. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [Internet]. Censo Demográfico 2010: Características gerais da população. [acesso em 2014 abr 13]. Disponível em: <ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Caracteristicas_Gerais_Religiao_Deficiencia/tab1_2.pdf>

9. Desvarieux M, Demmer RT, Rundek T, Boden-Albala B, Jacobs DR Jr, Sacco RL, et al. Periodontal microbiota and carotid intima-media thickness: the Oral Infections and Vascular Disease Epidemiology Study (INVEST). Circulation. 2005;111(5):576-82.

10. Schenkein HA, Loos BG. Inflammatory mechanisms linking periodontal diseases to cardiovascular diseases. J Periodontol. 2013;84(4 Suppl):S51-69.

11. Tonetti MS, D'Aiuto F, Nibali L, Donald A, Storry C, Parkar M, et al. Treatment of periodontitis and endothelial function. N Engl J Med. 2007;356(9):911-20.

12. Van Dyke TE, Starr JR. Unraveling the link between periodontitis and cardiovascular disease. J Am Heart Assoc. 2013;2(6):e000657.

 






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