Português | English

ISSN (Print): 2359-4802 | ISSN (Online): 2359-5647




Edition: 27.3 - 11 Article(s)




Back to Sumary






ORIGINAL ARTICLE

Anthropometric indicators of obesity among patients with acute myocardial infarction
Indicadores antropométricos de obesidade em pacientes com infarto agudo do miocárdio

Talita Ariane Amaro Lobato1; Rosileide de Souza Torres2; Aldair da Silva Guterres2; Wanderson André Alves Mendes3; Adrianne Pureza Maciel4; Francy Correa Costa Santos5; Shirlene Viana Leal5; Ana Lúcia Silva Araújo Sato6

1. Universidade do Estado do Pará - Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna - Programa de Residência Multiprofissional em Atenção à Saúde Cardiovascular - Belém, PA - Brasil
2. Universidade Federal do Pará - Hospital Universitário João de Barros Barreto - Serviço de Nutrição e Dietética - Belém, PA - Brasil
3. Universidade Federal do Pará - Hospital Universitário João de Barros Barreto - Programa de Residência Multiprofissional em Oncologia - Belém, PA - Brasil
4. Universidade Federal do Pará - Hospital Universitário João de Barros Barreto - Programa de Residência Multiprofissional em Saúde do Idoso - Belém, PA - Brasil
5. Escola Superior da Amazônia - Curso de Nutrição - Belém, PA - Brasil
6. Universidade do Estado do Pará - Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna - Serviço de Nutrição e Dietética - Belém, PA - Brasil

Corresponding author

Talita Ariane Amaro Lobato
Conjunto Natalia Lins, bloco B1 ap. 408 - Mangueirão
66640-465 - Belém, PA - Brasil
E-mail: talita_lobato@yahoo.com.br

Received in 2/26/2014
Accepted em 4/13/2014

Abstract

BACKGROUND: Obesity is associated with increased mortality for many chronic diseases, particularly cardiovascular diseases, thus constituting one of the risk factors for its occurrence. In Brazil obesity is rated as an independent risk factor for the prevalence of acute myocardial infarction.
OBJECTIVE: To characterize obesity through different anthropometric indicators among patients with acute myocardial infarction.
METHODS: A cross-sectional study was conducted of 34 adult and elderly male and female patients with acute myocardial infarction, treated between March and June 2013 at the Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna in Belém, Pará State. Social and demographic information was collected on lifestyles, comorbidities and anthropometric indicators of obesity.
RESULTS: High BMI and neck circumference values were found among the overall anthropometric indicators of obesity. The anthropometric indicators for central obesity presented higher risks for the conicity index and waist circumference, as well as the waist-height and waist-hip ratios. Waist circumference and waist-height ratio were the measurements most closely correlated with other anthropometric variables.
CONCLUSION: Most of the studied population presents high risks of further cardiovascular events, due mainly to high anthropometric indicators of obesity, highlighting the importance of anthropometry, which enables the early detection of obesity.

Keywords: Myocardial infarction; Indicators of morbidity and mortality; Anthropometry; Obesity

 

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares (DCV) constituem um grave problema de saúde pública no mundo. No Brasil, foram a causa mais frequente de óbito em 2009, com 31,3 %. Existem sólidas evidências que o desenvolvimento das DCV resulta da combinação de extensa gama de fatores de risco que, tradicionalmente, vêm sendo classificados como modificáveis e não modificáveis, divididos em genéticos, socioeconômicos e ambientais1-6.

Dentre as DCV, a síndrome coronariana aguda (SCA), que tem como substrato etiopatogênico a aterosclerose e refere-se ao conjunto de manifestações clínicas que refletem um quadro de isquemia miocárdica aguda, engloba um grupo de entidades que são a angina instável, o infarto agudo do miocárdio (IAM) e a morte súbita. O IAM é um evento agudo que sempre requer internação hospitalar. No ano de 2006, no Brasil, entre todas as causas específicas de óbito por doenças do aparelho circulatório, o IAM correspondeu a 23,0 % da proporção de mortes7-10.

Outro problema de saúde pública que tem despertado atenção das autoridades mundiais é a obesidade, que está associada ao aumento da mortalidade por inúmeras doenças crônicas, particularmente as DCV, estando, portanto, entre os fatores de risco para sua ocorrência, demonstrado com a divulgação dos resultados do estudo de Framingham5,11-13.

Estudos recentes sobre fatores de risco para IAM, no Brasil, mostram a obesidade como fator de risco independente. Entretanto, o acréscimo de risco não está relacionado apenas com o excesso de peso, mas principalmente com a adiposidade abdominal elevada, tornando-se importante fator de risco para a aterosclerose12,13.

As medidas antropométricas são indicadores do estado nutricional e apresentam baixo custo, inocuidade, simplicidade em sua execução e relativa facilidade de interpretação, destacando-se assim como bom instrumento para avaliação do excesso de gordura corporal. Diversos índices antropométricos têm sido propostos para determinar a associação entre excesso de peso e fatores de risco cardiovascular, servindo também como indicadores da obesidade, fazendo parte das estratégias usadas para a detecção, prevenção e controle da obesidade e sua localização4,14-16.

Assim, o diagnóstico nutricional precoce de obesidade em indivíduos com maior risco para DCV, em especial o IAM, permitiria ações de saúde mais eficazes no âmbito da prevenção primária e secundária. O objetivo deste estudo foi caracterizar a obesidade por meio de diferentes indicadores antropométricos em pacientes com IAM, atendidos na Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna em Belém, Pará.

 

MÉTODOS

Estudo observacional, com delineamento transversal, quantitativo, prospectivo, que envolveu amostra de conveniência.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição, sob o nº CAAE07663813.0.0000.0016. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Foram incluídos na pesquisa adultos e idosos, de ambos os sexos, com diagnóstico clínico de IAM, aptos mental e fisicamente para a realização dos procedimentos, sendo excluídos os que não apresentaram possibilidades para a aferição da antropometria.

A coleta dos dados foi realizada de março a junho 2013, sendo utilizado formulário de pesquisa operacionalizado unicamente pelo pesquisador responsável. A partir do prontuário, foram coletados dados sociodemográficos: idade, sexo, estado civil, escolaridade e renda; e a presença de comorbidades: hipertensão arterial sistêmica (HAS), dislipidemia (DLP) e diabetesmellitus (DM). Hábitos de vida, como tabagismo, consumo de bebida alcoólica e prática de atividade física, foram obtidos junto ao paciente.

As variáveis antropométricas foram coletadas para caracterizar a obesidade no grupo estudado, por meio da mensuração do peso corporal, da estatura, e das circunferências da cintura, do quadril e do pescoço17-19.

Os indicadores antropométricos identificados foram: o índice de massa corporal (IMC), circunferência do pescoço (CP), índice de conicidade (IC), circunferência da cintura (CC), razão cintura-estatura (RCE) e razão cintura-quadril (RCQ). O IMC foi definido por meio da razão [peso(kg)/estatura2(m)], cujos valores foram comparados com o padrão referência adotado pelo Ministério da Saúde (MS)19, para adultos e idosos. A RCE foi determinada pela razão da [CC(cm)/estatura(cm)] e o ponto de corte adotado para discriminação da obesidade central e risco cardiovascular foi >0,5 para ambos os sexos14. O IC foi determinado por equação matemática, e categorizado conforme descrito por Pitanga20.

 

 

O ponto de corte utilizado para classificação da CC foi o recomendado pelo MS19. A RCQ foi determinada pela razão [CC(cm)/circunferência do quadril(cm)], de acordo os pontos de corte utilizados pelo MS18. A CP foi classificada segundo o ponto de corte, apresentando risco aumentado se CP >37 cm para os homens e >34 cm para as mulheres17.

O banco de dados foi elaborado utilizando o software Microsoft Excel 2013. As variáveis categóricas foram descritas por razões e proporções, e as variáveis numéricas foram expressas por meio de medidas de tendência central e dispersão. O teste G com correção de Yates foi utilizado para avaliar associação e significância entre variáveis categóricas e numéricas. Para comparação e significância dos índices antropométricos utilizou-se a correlação de Spearman. O nível de significância usado para todos os testes foi p<0,05.

 

RESULTADOS

A amostra foi constituída por 34 indivíduos de ambos os sexos, com média de idade 61,0±10,0 anos, variando entre 40-82 anos. A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas da população: 58,8 % do sexo masculino; 97,1 % de indivíduos casados; 32,4 % com ensino fundamental incompleto; e 67,7 % com renda mensal entre 1-2 salários-mínimos.

 

 

Quanto aos hábitos de vida: 20,0 % etilista no sexo masculino; 100,0 % não etilista no sexo feminino; 80,0 % de fumantes no sexo masculino; 70,0 % do sexo masculino declarou não ser praticante de atividade física. Não houve diferença estatística entre os sexos para nenhuma das variáveis analisadas com relação aos hábitos de vida (Tabela 2).

 

 

As comorbidades estiveram presentes em 73,5 % da população estudada, sendo a HAS a mais prevalente com 38,3 % (Tabela 3).

 

 

Os indicadores antropométricos de obesidade total assim se apresentaram na população estudada: 90,0 % dos homens e 64,3 % das mulheres encontravam-se com obesidade segundo o IMC; na população masculina, 95,0 % apresentaram CP aumentado. Houve diferença estatisticamente significativa entre os sexos apenas em relação aos valores médios de CP, em que os homens apresentaram maior risco em relação às mulheres (p=0,007) (Tabela 4).

 

 

A Tabela 5 apresenta os indicadores de obesidade central: IC, CC, RCE e RCQ e como eles se comportaram na população estudada. IC mostrou que 90,0 % dos indivíduos do sexo masculino e 100,0 % do sexo feminino apresentaram risco aumentado. Para a CC, 55,0 % dos homens e 100,0 % das mulheres apresentaram risco aumentado, com diferença estatística entre os sexos, denotando risco para a população feminina (p=0,005). Em relação à RCE, 95,0 % da população masculina e 100,0 % da população feminina apresentaram risco aumentado. Para a RCQ, 60,0 % dos homens encontravam-se com valores normais, e 92,9 % das mulheres apresentaram risco aumentado, com significado estatístico (p=0,003).

 

 

Na Tabela 6, pode-se observar a correlação não paramétrica entre os indicadores antropométricos, por meio da correlação de Spearman. O IMC apresentou correlação positiva e significativa com a CC. A CC apresentou correlação positiva e significativa com RCE, RCQ e IC. A RCE apresentou correlação positiva e significativa com RCQ e IC. Na RCQ verificou-se correlação positiva e significativa com IC.

 

 

DISCUSSÃO

A média de idade dos indivíduos estudados foi 61,0±10,0 anos. Resultado semelhante foi encontrado por Escosteguy et al.7, Chagas et al.12 e Duarte et al.21 que observaram média de idade de 60,2 anos, 61,0 anos e 60,0 anos, respectivamente. A idade é um dos importantes fatores de risco para o desenvolvimento de DCV, uma vez que o envelhecimento leva à maior incidência das doenças crônico-degenerativas22,23.

A prevalência de pacientes do sexo masculino está em acordo com outros estudos envolvendo indivíduos portadores de DCV, como o de Colombo e Aguillar1, Rocha e Silva24 e Pinheiro et al.25 nos quais 56,4 %, 67,6 % e 72,0 %, respectivamente, eram homens. Os achados desses estudos reforçam as evidências que as DCV manifestas na idade adulta são resultado dos chamados fatores de risco, e entre os fatores de risco constitucionais, também conhecidos como não modificáveis, temos em especial o sexo masculino6.

Quanto ao estado civil, a maioria era de indivíduos casados, semelhante aos estudos de Colombo e Aguillar1 (65,4 % de casados), Colombo et al.11 (74,4 %) e Chagas et al.12 (69,8 %).

Em relação à escolaridade, o ensino fundamental incompleto neste estudo foi o mais prevalente, assemelhando-se ao observado por Colombo e Aguillar1 (84,6 %), Colombo et al.11 (58,1 %) e Chagas et al.12 (41,6 %).

A renda média dos participantes do estudo ficou entre 1-2 salários-mínimos concordando com o estudo de Colombo e Aguilar1, no qual os participantes têm renda inferior a três salários-mínimos em 53,9 % dos indivíduos. É possível que piores condições socioeconômicas se reflitam em desfechos cardiovasculares desfavoráveis, especialmente isquêmicos26.

A maioria dos indivíduos estudados declarou-se sedentária, o que está em acordo com os achados de Colombo et al.11 (60,4 %) e Martins et al.27 (42,8 %). Ressalta-se a estimativa de que o sedentarismo, ainda que de forma dependente de outros fatores, seja responsável por 22,0 % das doenças isquêmicas do coração27.

No presente estudo a maioria dos indivíduos afirmou ser tabagista, sendo mais frequente entre os homens, igualmente observado por Martins et al.27 (27,2 % dos homens), Chagas et al.12 (55,4 % referindo o hábito do tabagismo) e Duarte et al.21 (42,0 % dos indivíduos fumantes). A partir dos estudos de Framingham, o tabagismo foi identificado como um dos principais fatores de risco para as DCV16.

Entre as comorbidades encontradas neste estudo a mais prevalente foi a HAS, mesmo achado no estudo de Sancho et al.9 (87,0 %), Pinheiro et al.25 (48,0 %) e Marcadenti et al.28 (75,0 %). Todos esses estudos envolviam pacientes com SCA, destacando-se a HAS entre os clássicos fatores de risco para doenças isquêmicas do coração28.

A avaliação antropométrica e identificação do excesso de gordura corporal podem favorecer a identificação precoce do risco cardiovascular, ressaltando a importância da adequada aferição e avaliação dos indicadores antropométricos na prática clínica29.

Nesta pesquisa, a maioria da população estudada apresentou obesidade, de acordo com o IMC, também observado por Silva et al.5 (70,4 %) e Colombo et al.11 (72,0 %). Scherer e Vieira30 e Sampaio e Figueiredo31 afirmam que entre os parâmetros antropométricos utilizados para avaliação do estado nutricional, o mais utilizado na prática clínica atualmente é o IMC, por ser prático, de manejo simples e capaz de identificar facilmente a obesidade generalizada.

Ainda sobre os indicadores de obesidade total no presente estudo, a CP se apresentou aumentada segundo os pontos de corte adotados. Tibana et al.32 observaram que mulheres com maiores valores de CP tinham maior elevação do fatores de risco cardiovascular e o estudo de Chagas et al.12 mostra a correlação entre CP e fatores de risco cardiovascular. Em comum a esses achados, recentemente admite-se que a CP possa representar importante indicador na predição da elevação dos fatores de risco cardiovascular, por guardar relação linear com a aterogênese17,32-34.

Em relação aos indicadores de obesidade central, o estudo realizado por Mendes et al.16 encontrou risco aumentado para o IC em 83,0 % dos homens e 89,0 % das mulheres, achado semelhante ao encontrado na presente pesquisa. Estudos afirmam que IC parece ser bom indicador de distribuição de gordura, além de apresentar melhor desempenho para discriminar o risco coronariano16,23,20.

A CC, de acordo com os pontos de corte adotados neste estudo, apresentou prevalência de risco aumentado, o que também ocorreu nos estudos de Rezende et al.35 (22,2 % dos homens e 42,0 % das mulheres) e de Viebig et al.36 (40,3 % do homens e 65,8 % das mulheres). A obesidade central avaliada por meio da medida da CC, que está diretamente relacionada à quantidade de tecido adiposo visceral, apresenta alto impacto sobre as DCV5,20,37.

Para a RCE, a maioria da população estudada apresentou risco aumentado, semelhante ao observado por Silva et al.5 (96,3 %). Chagas et al.12 citam a forte correlação da RCE com a gordura intra-abdominal, e sua associação com o maior risco de infarto agudo do miocárdio e fatores de risco para DCV. Outra vantagem desse indicador antropométrico de obesidade é ter ponto de corte muito próximo dos pontos obtidos para diversas populações14,15.

Em relação à RCQ, a maioria dos homens apresentou valores normais para esse indicador, enquanto que as mulheres apresentaram risco aumentado. Resultado oposto foi encontrado por Colombo et al.11 o qual mostrou que 52,5 % dos homens e 20,0 % das mulheres apresentavam esse indicador desfavorável. A RCQ tem se mostrado um preditor de aterosclerose, pois com ela se associam de forma independente eventos cardiovasculares, bem como o mais alto risco de infarto do miocárdio. Essa capacidade pode estar ligada ao fato de esse índice contemplar melhor a distribuição da gordura corporal12,20,22,38,39.

O estudo de Colombo et al.11 apresentou correlação positiva significativa do IMC com a CC, achado também observado no presente estudo. Ainda de acordo com esses autores, a CC apresentou significativa correlação com a RCQ, fato também presente nesta pesquisa. O estudo de Mendes et al.16 encontrou correlação positiva entre IMC e CC como neste estudo, contudo achou correlação entre IMC e IC, o que não ocorreu na população aqui estudada. No estudo desses autores observou-se a ainda correlação positiva entre CC e IC, conforme observado também no presente estudo. A correlação entre IMC e CC também foi observada nas pesquisas realizadas por Pinho et al.4, Ben-Noun e Laor34, e Sampaio e Figueiredo31.

A obesidade é um dos maiores problemas de saúde no mundo, com importantes implicações sociais, psicológicas e médicas, e está fortemente associada ao aumento da mortalidade cardiovascular; portanto estudos que determinem sua prevalência são importantes. Atualmente, um aspecto que desperta atenção nas pesquisas é que o aumento de risco não está relacionado apenas ao excesso de peso, mas principalmente com a distribuição de gordura, pois quando a obesidade está centralizada na região abdominal as repercussões negativas tanto de ordem metabólica quanto cardiovascular são mais significativas com a adiposidade abdominal elevada, centralizada na região superior do corpo, tornando-se importante fator de risco no desenvolvimento da aterosclerose12,20,29,32,40.

Para medir o excesso de gordura corporal da região superior do corpo, medidas mais simples e financeiramente mais acessíveis estão disponíveis. No entanto, ainda não se chegou à conclusão de quais indicadores antropométricos estão mais fortemente associados com a predição de risco cardiovascular e carga aterosclerótica coronariana. Outro entrave é o conhecimento de pontos de corte universais, ou seja, que sejam válidos para vários grupos populacionais, e úteis para detecção do risco de desenvolvimento de doenças, tanto na vigilância da saúde quanto em estudos de diagnóstico populacional12,14,28,32,39.

A estatura em função do déficit nutricional na infância decorrente de condição de pobreza pode estar associada ao desenvolvimento da obesidade abdominal; assim, indicadores antropométricos que a levem em consideração no cálculo seriam os mais recomendados14,23.

A CC e a RCQ apresentam vantagens em relação à simplicidade e ao baixo custo da medida, sendo necessária apenas uma fita métrica para a mensuração das circunferências; e a RCQ, ao ser calculada por uma simples divisão entre as medidas da cintura e do quadril, facilita a utilização para o diagnóstico da obesidade central em estudos ou intervenções populacionais; apresenta, porém, a desvantagem de não considerar a estatura e as alterações no peso14,23.

A RCE considera a estatura para o cálculo, por meio da razão das duas medidas aferidas, mas não leva em conta o peso corporal14,23.

O IC parece ser bom indicador de distribuição de gordura, captando as variações na composição corporal, permitindo comparações entre sujeitos que apresentem diferentes medidas de peso corporal e estatura. Entretanto, necessita de uma balança e um estadiômetro, o que pode inviabilizar em alguns momentos o seu uso. Outra limitação para a utilização do IC em estudos populacionais refere-se à dificuldade de se calcular o denominador da equação proposta para sua determinação14,16,23.

Parece clinicamente relevante a utilização da CP, levando em conta sua fácil aplicação, além de pouca exposição do avaliado e como fator de prevenção do risco cardiovascular. Destaca-se que essa ferramenta apresenta baixo custo e pode ser aplicada em grandes populações para avaliar possíveis doenças12,17,32-34.

Existem limitações com relação ao uso do IMC, pois somente ele não é capaz de fornecer informações acerca da distribuição da gordura no corpo. A literatura aponta para a importância da obtenção de pelo menos dois métodos para análise da gordura corporal: um para a quantidade e outro para avaliação de sua distribuição. Assim, recomenda-se a utilização combinada do IMC com os indicadores de obesidade central para potencializar a capacidade preditiva de complicações cardiovasculares11,14,16,23,37.

A diversidade de indicadores antropométricos para estimar a obesidade contribui para que a escolha de um deles seja baseada em critérios que levem em consideração fatores como população estudada, sexo, idade e, principalmente, as evidências baseadas em pesquisas populacionais ou intervenções clínicas. Deve-se verificar também a disponibilidade e viabilidade de instrumentos para aferição das medidas necessárias, bem como a definição de pontos de corte para indicadores que se destacam por sua simplicidade operacional e boa acurácia, permitindo a detecção dos indivíduos sob risco. São, portanto, de grande utilidade nos serviços de atenção à saúde, além de possibilitar o conhecimento da situação de grupos populacionais específicos frente a esses riscos, quando empregados na pesquisa epidemiológica14,23,37,38.

 

CONCLUSÕES

Os resultados sugerem que a maior parte da amostra apresenta alto risco de novos eventos cardiovasculares, em decorrência dos indicadores antropométricos de obesidade total e central alterados somados à alta prevalência de comorbidades e hábitos de vida inadequados.

Ressalta-se a importância da antropometria como instrumento na prática clínica, possibilitando a detecção precoce da obesidade e distribuição regional de gordura, que servirá de base para as ações de prevenção e intervenção, além de favorecer medidas de vigilância nutricional e epidemiológica.

Conflito de interesse

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

Fontes de financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação acadêmica

Este artigo representa parte do TCC do Programa de Residência Multiprofissional em Atenção à Saúde Cardiovascular de Talita Ariane Amaro Lobato, da Universidade do Estado do Pará em associação com a Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna.

 

REFERÊNCIAS

1. Colombo RCR, Aguillar OM. Estilo de vida e fatores de risco de pacientes com primeiro episódio de infarto agudo do miocárdio. Rev Latino-Am Enferm, Ribeirão Preto. 1997;5(2):69-82.

2. Pellanda LC, Echenique L, Barcellos LMA, Maccari J, Borges FK, Zen BL. Doença cardíaca isquêmica: a prevenção inicia durante a infância. J Pediatr (Rio J). 2002;78(2):91-6.

3. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise da Situação de Saúde. Saúde Brasil 2010: uma análise da situação de saúde e de evidências selecionadas de impacto de ações de vigilância em saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2011.

4. Pinho PM, Silva ACM, Araújo MS, Reis CP, Almeida SS, Barros LCA, et al. Correlação entre variáveis nutricionais e clínicas de idosos cardiopatas. Rev Bras Cardiol. 2012;25(2):132-40.

5. Silva ARA, Dourado KF, Pereira PB, Lima DSC, Fernandes AO, Andrade AM, et al. Razão TG/HDL-c e indicadores antropométricos preditores de risco para doença cardiovascular. Rev Bras Cardiol. 2012;25(1):41-9.

6. Marochi LH, Campos CW, Marcante FP, Moreira DM. Comparação de fatores de risco cardiovascular entre médicos cardiologistas e não cardiologistas. Rev Bras Cardiol. 2013;26(4):248-52.

7. Escosteguy CC, Portela MC, Medronho RA, Vasconcellos MTL. Infarto agudo do miocárdio: perfil clínico-epidemiológico e fatores associados ao óbito hospitalar no município do Rio de Janeiro. Arq Bras Cardiol. 2003;80(6):593-9.

8. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise da Situação de Saúde. Saúde Brasil 2008: 20 anos do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2009.

9. Sancho AG, Bacelar SC, Cader SA, Caldeira JB, Pereira CCL, Lima Junior NA, et al. A significância da avaliação intra-hospitalar da capacidade funcional na síndrome coronariana aguda. Rev Bras Cardiol. 2011;24(5):282-90.

10. Manfroi WC, Peukert C, Berti CB, Noer C, Gutierres DA, Silva FTBGC. Infarto agudo do miocárdio. primeira manifestação da cardiopatia isquêmica e relação com fatores de risco. Arq Bras Cardiol. 2002;78(4):388-91.

11. Colombo RCR, Aguillar OM, Gallani MCBJ, Gobatto CA. Caracterização da obesidade em pacientes com infarto do miocárdio. Rev Latino-Am Enferm, Ribeirão Preto. 2003;11(4):461-7.

12. Chagas P, Caramori P, Barcellos C, Galdino TP, Gomes I, Schwanke CHA. Associação de diferentes medidas e índices antropométricos com a carga aterosclerótica coronariana. Arq Bras Cardiol. 2011;97(5):397-401.

13. Santos AMG, Mattos MA, Siqueira Filho A. Valor prognóstico do estado nutricional na síndrome coronariana aguda. Rev Bras Cardiol. 2012;25(1):50-8.

14. Haun DR, Pitanga FJG, Lessa I. Razão cintura/estatura comparado a outros indicadores antropométricos de obesidade como preditor de risco coronariano elevado. Rev Assoc Med Bras. 2009;55(6):705-11.

15. Ho SY, Lam TH, Janus ED; Hong Kong Cardiovascular Risk Factor Prevalence Study Steering Committee. Waist to stature ratio is more strongly associated with cardiovascular risk factors than other simple anthropometric indices. Ann Epidemiol. 2003;13(10):683-91.

16. Mendes WAA, Carmin SEM, Pinho PM, Silva ACM, Machado LMM, Araújo MS. Relação de variáveis antropométricas com os perfis pressórico e lipídico em adultos portadores de doenças crônicas não transmissíveis. Rev Bras Cardiol. 2012;25(3):200-9.

17. Ben-Noun L, Sohar E, Laor A. Neck circumference as a simple screening measure for identifying overweight and obese patients. Obes Res. 2001;9(8):470-7.

18. Ministério da Saúde. Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional - SISVAN: orientações básicas para a coleta, processamento, análise de dados e informação em serviços de saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2004.

19. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Orientações para a coleta e análise de dados antropométricos em serviços de saúde: Norma Técnica do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional - SISVAN. Brasília: Ministério da Saúde; 2011.

20. Pitanga FJG. Antropometria na avaliação da obesidade abdominal e risco coronariano. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum. 2011;13(3):238-41.

21. Duarte ER, Pellanda LC, Portal VL. Perfil inflamatório, metabólico e lipídico na síndrome isquêmica aguda: relação com eventos intra e pós-hospitalares. Arq Bras Cardiol. 2005;84(2):122-9.

22. Avezum A, Piegas LS, Pereira JCR. Fatores de risco associados com infarto agudo do miocárdio na região metropolitana de São Paulo: uma região desenvolvida em um país em desenvolvimento. Arq Bras Cardiol. 2005;84(3):206-13.

23. Almeida RT, Almeida MMG, Araújo TM. Obesidade abdominal e risco cardiovascular: desempenho de indicadores antropométricos em mulheres. Arq Bras Cardiol. 2009;92(5):375-80.

24. Yazlle Rocha JS, Silva GC. Hospitalizações por infarto agudo do miocárdio segundo o dia da semana: estudo retrospectivo. Rev Saúde Pública. 2000;34(2):157-62.

25. Pinheiro DGM, Pinheiro CHJ, Marinho MJF. Estilo de vida e importância da educação em saúde na reabilitação cardíaca após cirurgia de revascularização do miocárdio. Rev Bras Promoção Saúde. 2007;20(4):213-20.

26. Ramos ARW, Flores MB, Libonati RMF, Quaresma JAS, Carneiro SR. Preditores de mortalidade na cirurgia de revascularização do miocárdio. Rev Bras Cardiol. 2013;26(3):193-9.

27. Martins LN, Souza LS, Silva CF, Machado RS, Silva CEF, Vilagra MM, et al. Prevalência dos fatores de risco cardiovascular em adultos admitidos na Unidade de Dor Torácica em Vassouras, RJ. Rev Bras Cardiol. 2011;24(5):299-307.

28. Marcadenti A, Oliveira VG, Bertoni VM, Wittke E, Dourado LP, Souza RB, et al. Resistência à insulina e indicadores antropométricos em pacientes com síndrome coronariana aguda. Rev Bras Cardiol. 2013;26(4):259-66.

29. Alves LR, Coutinho V, Santos LC. Indicadores antropométricos associados ao risco de doença cardiovascular. Arq Sanny Pesq Saúde. 2008;1(1):1-7.

30. Scherer F, Vieira JLC. Estado nutricional e sua associação com risco cardiovascular e síndrome metabólica em idosos. Rev Nutr. 2010;23(3):347-55.

31. Sampaio LR, Figueiredo VC. Correlação entre o índice de massa corporal e os indicadores antropométricos de distribuição de gordura corporal em adultos e idosos. Rev Nutr. 2005;18(1):53-61.

32. Tibana RA, Teixeira TG, Farias DL, Silva AO, Madrid B, Vieira A, et al. Relação da circunferência do pescoço com a força muscular relativa e os fatores de risco cardiovascular em mulheres sedentárias. Einstein, São Paulo. 2012;10(3):329-34.

33. Preis SR, Massaro JM, Hoffmann U, D'Agostino RB Sr, Levy D, Robins SJ, et al. Neck circumference as a novel measure of cardiometabolic risk: the Framingham Heart Study. J Clin Endocrinol Metab. 2010;95(8):3701-10.

34. Ben-Noun LL, Laor A. Relationship between changes in neck circumference and cardiovascular risk factors. Exp Clin Cardiol. 2006;11(1):14-20.

35. Rezende FAC, Rosado LFPL, Ribeiro RCL, Vidigal FC, Vasques ACJ, Bonard IS, et al. Índice de massa corporal e circunferência abdominal: associação com fatores de risco cardiovascular. Arq Bras Cardiol. 2006;87(6):728-34.

36. Viebig RF, Valero MP, Araújo F, Yamada AT, Mansur AJ. Perfil de saúde cardiovascular de uma população adulta da região metropolitana de São Paulo. Arq Bras Cardiol. 2006;86(5):353-60.

37. Zeller M, Steg PG, Ravisy J, Lorgis L, Laurent Y, Sicard P, et al; RICO Survey Working Group. Relation between body mass index, waist circumference, and death after acute myocardial infarction. Circulation. 2008;118(5):482-90.

38. de Koning L, Merchant AT, Pogue J, Anand SS. Waist-circumference and waist-to-hip ratio as predictors of cardiovascular events: meta-regression analysis of prospective studies. Eur Heart J. 2007;28(7):850-6.

39. Yusuf S, Hawken S, Ounpuu S, Bautista L, Franzosi MG, Commerford P, et al; INTERHEART Study Investigators. Obesity and the risk of myocardial infarction in 27,000 participants from 52 countries: a case-control study. Lancet. 2005;366(9497):1640-9.

40. Souza LJ, Gicovate Neto C, Chalita FEB, Reis AFF, Bastos DA, Souto Filho JTD, et al. Prevalência de obesidade e fatores de risco cardiovascular em Campos, Rio de Janeiro. Arq Bras Endocrinol Metab. 2003;47(6):669-76.

 






Developed by Information Technology and Communication SBC | All rights reserved © Copyright 2016 | Sociedade Brasileira de Cardiologia | tecnologia@cardiol.br